NEURO ONCOLOGIA: Biomarcadores e Oncogênese Tumoral

Os BIOMARCADORES e o ESTUDO GENÉTICO na ONCOGÊNESE dos TUMORES DO SISTEMA NERVOS CENTRAL estão levando a uma verdadeira revolução no diagnóstico, classificação e tratamento desse grupo de neoplasias. Graças aos avanços científicos da útima década, novas perspectivas estão moldando o entendimento sobre esse tema e proporcionando novas modalidades terapêuticas aos pacientes com esta condição.

Desvendando os Tumores Cerebrais: Como a Genética Está Revolucionando o Tratamento

Introdução: Uma Nova Era na Luta Contra os Tumores do Sistema Nervoso Central (SNC)

Receber o diagnóstico de tumor cerebral é uma notícia complexa e desafiadora. Essas doenças são sérias e representam um caminho difícil para os pacientes e suas famílias. No entanto, em meio a esse cenário, a ciência está vivendo uma verdadeira revolução na forma como entende e trata essas condições. Estamos entrando em uma era de descobertas, onde a genética nos oferece um mapa detalhado para combater cada tumor de forma mais inteligente e personalizada.

O objetivo deste artigo é fazer  uma atualização sobre a Biologia Molecular e Estudos Genéticos sobre os tumores do SNC, explicando os conceitos fundamentais de uma maneira clara e acessível. Mais importante, vamos explorar como as mais recentes descobertas genéticas estão abrindo caminho para tratamentos mais eficazes, oferecendo uma nova esperança aos pacientes e familiares.

Para entender essa nova fronteira, vamos começar com o básico: o que exatamente é um tumor cerebral?

O Básico: O Que é um Tumor Cerebral?

Um tumor cerebral primário é consiste no crescimento anormal de células que se originam no próprio cérebro. Existem algumas variantes histológicas, sendo os GLIOMAS os mais prevalentes. Em um estudo brasileiro, por exemplo, eles representaram 56,5% dos casos de tumores intracranianos primários analisados.

Os sintomas que levam ao diagnóstico podem variar, sendo os mais frequentes observados na população:

  • Cefaleia (dor de cabeça): É o sintoma mais comum, relatado por até 55% dos pacientes em alguns estudos.

  • Convulsões: Crises epilépticas são um sinal comum, indicando uma irritação no tecido cerebral.

  • Distúrbios de equilíbrio e movimento: Dificuldade para andar, tontura ou perda de coordenação motora também são frequentes.

A Classificação dos Tumores: De Aparência a Identidade Molecular

Tradicionalmente, os tumores do SNC eram classificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com base em sua aparência microscópica (histologia). Uma das características mais importantes dessa classificação é o "grau" do tumor, que indica sua agressividade e velocidade de crescimento.

De forma simplificada, a classificação da OMS divide os gliomas em:

  1. Baixo Grau (Graus 1 e 2 da OMS): Tumores de crescimento mais lento e comportamento menos agressivo.

  2. Alto Grau (Graus 3 e 4 da OMS): Tumores de crescimento rápido e mais agressivos, como o glioblastoma, que é classificado como Grau 4.

Essa classificação visual foi, e ainda é, extremamente útil. No entanto, ela não contava a história completa da doença. Isso significava que médicos e pacientes enfrentavam prognósticos frustrantemente imprevisíveis, pois tumores visualmente idênticos podiam levar a desfechos drasticamente diferentes. Faltava uma peça fundamental no quebra-cabeça.

Observar a aparência das células foi um primeiro passo, mas a verdadeira revolução veio quando os cientistas começaram a ler o "manual de instruções" genético de cada tumor.

A Revolução Genética: O Que os Biomarcadores nos Dizem

A grande virada na neuro-oncologia veio com o conceito de biomarcador genético. Pense nele como uma assinatura molecular ou uma impressão digital única do tumor. Essa assinatura revela não apenas a identidade real do tumor, mas também prevê como ele provavelmente se comportará e a que tipo de tratamento responderá melhor.

Estudos Genéticos na Oncogênese dos Tumores do Sistema Nervoso Central.

Para os gliomas, o biomarcador mais transformador foi a descoberta de mutações nos genes IDH1 e IDH2. A simples presença ou ausência dessa alteração genética divide os gliomas em dois grupos fundamentalmente diferentes, com prognósticos e características biológicas distintas.

  • Glioma com Mutação IDH

    (IDH-mutante)

  • Glioma Sem Mutação IDH

    (IDH-selvagem)

O Que Significa?

O tumor possui uma alteração específica no gene (Glioma com IDH MUTANTE). Essa mutação, está associada a um melhor prognóstico, com menor morbimortalidade.

Quando encontramos neoplasias gliais (gliomas) sem essa mutação, isto é, IDH SELVAGEM, observamos uma doença mais agressiva com prognóstico neurológico mais reservado.

Exemplo Comum

Astrocitoma, IDH-mutante (melhor prognóstico);

Glioblastoma, IDH-selvagem (doença mais agressiva, associada a um desfecho).

Essa descoberta foi tão fundamental que a OMS atualizou sua classificação oficial de tumores cerebrais em 2021 para incorporar esses marcadores genéticos. Uma das mudanças mais significativas foi na nomenclatura: um tumor que antes era chamado de "Glioblastoma, mutante IDH" agora é classificado como "Astrocitoma, IDH-mutante, grau 4 da OMS". Essa mudança reflete o reconhecimento de que, apesar de sua aparência agressiva sob o microscópio (Grau 4), a presença da mutação IDH o torna uma entidade biológica fundamentalmente diferente de um glioblastoma sem a mutação, com um prognóstico e resposta ao tratamento distintos.

Identificar essas assinaturas genéticas não é apenas um avanço no diagnóstico; é o que transforma o conhecimento em ação, permitindo-nos desenvolver armas de precisão contra o câncer.

Biomarcadores em Ação: Da Descoberta ao Tratamento Direcionado

O conhecimento dos biomarcadores genéticos deu origem à terapia-alvo. A ideia é simples e poderosa: desenvolver medicamentos que atacam especificamente as células tumorais que possuem uma determinada mutação genética. Ao contrário da quimioterapia convencional, que atua de forma mais ampla e pode afetar muitas células do corpo, a terapia-alvo funciona como uma chave específica para uma fechadura molecular presente apenas nas células do câncer, poupando ao máximo as células saudáveis.

Um exemplo claro dessa abordagem é a mutação BRAF V600E. Essa alteração genética é encontrada com frequência notável em certos tipos de tumores, incluindo 56% dos xantoastrocitomas pleomórficos (PXA) e 40% dos gangliogliomas (GG). Ao identificar essa mutação, os médicos podem utilizar medicamentos conhecidos como "inibidores de BRAF", que foram projetados especificamente para atacar as células que carregam essa alteração.

Essa abordagem se estende a outros tipos de tumores. O meduloblastoma, um dos tumores cerebrais malignos mais comuns em crianças, é outro excelente exemplo. Hoje, ele não é mais visto como uma doença única, mas sim classificado em diferentes subgrupos moleculares (como WNT-ativado e SHH-ativado). Essa subdivisão permite a estratificação de risco do paciente. Na prática, isso significa que crianças com tumores de menor risco podem receber uma terapia de-escalada — um tratamento menos agressivo que reduz os efeitos colaterais de longo prazo — enquanto aquelas com subtipos de maior risco recebem o tratamento intensificado necessário para sua sobrevivência. É a medicina de precisão em sua forma mais humana.

Essa capacidade de ler o código genético de cada tumor e responder com tratamentos personalizados está mudando o cenário do cuidado ao paciente e nos leva a um futuro muito mais promissor.

Biologia Molecular e o desenvolvimento de medicações para “terapia alvo” no tratamento dos tumores cerebrais.

Conclusão: Um Horizonte de Esperança na Neuro-Oncologia

Embora um diagnóstico de tumor cerebral continue sendo uma jornada séria e desafiadora, o campo da neuro-oncologia está avançando a um ritmo sem acelerado. A ciência está nos proporcionando ferramentas cada vez mais sofisticadas para entender e combater essas doenças.

A principal mudança de paradigma que testemunhamos é a transição de uma classificação baseada apenas na aparência das células para uma abordagem integrada, que utiliza biomarcadores moleculares para definir a verdadeira natureza de um tumor. Essa compreensão mais profunda nos permite prever o comportamento de um tumor, refinar o diagnóstico e, o mais importante, desenvolver terapias-alvo que atacam suas vulnerabilidades específicas.

Cada nova descoberta genética, cada biomarcador identificado e cada novo tratamento direcionado nos aproxima de um futuro onde o tratamento de um tumor cerebral será ainda mais eficaz e personalizado. Para os pacientes e suas famílias, essa revolução científica se traduz na mais poderosa das forças: a esperança.

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IN NEURO Assistência Médica | Dr. Alfredo Magalhães

Dr. ALFREDO MAGALHÃES - NEUROCIRURGIÃO com Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN).

Residência Médica pelo HOSPITAL DE BASE DO DISTRITO FEDERAL (HBDF), PÓS-GRADUAÇÃO em NEUROCIRURGIA ONCOLÓGICA e CIRURGIA DE BASE DO CRÂNIO pelo INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER (INCA).

Atuação profissional, com responsabilidade, dedicação e atenção aos pacientes neurológicos.

Ampla formação em neurocirurgia, com 15 anos de experiência nas diversas áreas dessa nobre especialidade.

https://neuroalfmagalhaes.com